arqui]vos de antropo[logia

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PROBLEMA DA PERCEPÇÃO

Em Berlim, disse-se numa expressão familiar de alguém que se considera insano: é natural de Dalldorf, em Viena: … é natural de Steinhoff, em Paris, falando no mesmo sentido de Charenton. Por toda a parte, portanto, permanece viva a percepção de que a expulsão da comunidade, a desintegração completa do elo entre a comunidade e cada pessoa seria constitutiva da doença mental. Do mesmo modo, talvez não seja por acaso que os sanatórios para os doentes não se encontram, como outros hospitais, no interior das cidades.

Afortunados em contos de fadas vêem jardins encantados onde outras pessoas nada reparam, eles se deparam com tesouros onde outros passam distraídos. Isso não pode ser entendido, que os jardins encantados ou os próprios tesouros sejam invisíveis para outras pessoas, mas tornam-se visíveis para os afortunados, ou que repentinamente diante de tais coisas a percepção de outra criatura esmoreça, porém a dos afortunados se intensifica. Neste ponto, a única intenção possível é senão que os afortunados teriam uma percepção mais aguçada do que a das pessoas comuns, sendo que nenhuma delas é falsa, por conseguinte nenhuma delas é verdadeira. A percepção não é afetada por esta alternativa.

PERCEPÇÃO E CORPO VIVO

Através de nossa corporalidade, mais precisamente através de nosso próprio corpo vivo, nós estamos no mundo da percepção, inseridos assim em uma das mais altas camadas da linguagem. Contudo cegos, geralmente incapazes, aqui como corpo vivo natural, de distinguir com precisão a aparência do ser da forma messiânica. É muito significativo que o próprio corpo vivo nos seja inacessível em tantos aspectos: não podemos ver nosso rosto, nossas costas, nem nossa cabeça por inteiro; portanto, a parte mais nobre do corpo vivo nós não podemos apanhar com as próprias mãos, não podemos abarcar, entre outras coisas. Nós nos destacamos no mundo da percepção com os pés, não com a cabeça. Daí a necessidade de que nosso corpo vivo nos transforme no instante da pura percepção; daí o martírio sublime da excentricidade em seu corpo vivo.

Há uma história da percepção, que é por fim a história do mito. O corpo vivo daquele que percebe nem sempre foi apenas as coordenadas verticais à horizontal da terra. A maneira ereta de andar conquistada gradualmente pelos seres humanos proporciona agora o predomínio de outros modos de percepção. Mas, de resto, isto não só é possível como necessário. Nem sempre o conhecimento das distâncias formais irá dominar a percepção visual (Caso de uma criança que, sem órgãos de apreensão fixados num dado local, forma o seu mundo visual: uma outra hierarquia de distâncias). A história da percepção se deu a partir dos elementos da mudança da natureza e da mudança do corpo vivo, mas somente ela dá a estes elementos o significado espiritual e coroação (realização, síntese) no mito. Nele constroem-se e transformam-se lentamente as grandes disposições da percepção que determinam o modo como se confrontam corpo vivo e natureza: direita, esquerda – acima, abaixo – para frente, para trás.

nota do editor
Scholem relata que Benjamin, em 1918, por ocasião de um seminário de Paul Häberlin sobre Freud, se ocupou com o “Memórias de um doente dos nervos” de Daniel Schreber (v. Scholem, Freundschaft, 75; v. também vol. IV, 615-617). A primeira nota da primeira parte do apontamento (de Em a cidades) pode ter sido escrita neste momento. De acordo com o estilo da escrita e o tipo da tinta, a segunda nota e a primeira da segunda parte (acima, de Afortunados a corpo vivo) foram registradas mais tarde. O final (de a trás) é posterior, provavelmente acrescentado apenas no início dos anos 20.

Fonte: Ms 801 – folha de cerca de 12 x 7,5 cm, […]
Período: 1918 até aproximadamente 1920/1921

VARIANTE […]

nota do tradutor
Para ‘corpo vivo’ como tradução de Leib, distinto de Körper, ‘corpo material’, ver nota fr 56.

2 comentários

  1. Romain Bragard

    I. A tradutora e organizadora Marilene Carone, na edição brasileira das “Mémorias de um doente dos nervos” (ed. PAZ E TERRA S.A., São Paulo-SP, 1995) indica (p.18):
    “Durante mais de trinta anos depois do trabalho de Freud, não se registra na literatura especializada nenhuma publicação relevante sobre o Schreber. Há apenas algumas referências a Schreber, dentre as quais a mais interessante talvez seja a de Walter Benjamin, que em 1928 o situa no centro da sua coleção intitulada “livros de doentes mentais””.
    O “caso Schreber” de Freud, estudo unicamente baseado no livro, foi publicado pela primeira vez em 1911, três anos antes da morte do Schreber.

    II. A frase “Nós nos destacamos no mundo da percepção com os pés, não com a cabeça” lembra que o amigo de Benjamin, Georges Bataille, escreveu em 1929 sobre o dedão do pé. O texto foi republicado junto a um comentário de Roland Barthes, lido em 1972 no Colloque Bataille de Cerisy. Le gros orteil & Les sorties du texte (éditions Farrago, 2006).

    • André-Kees Schouten

      O referido texto de Bataille sobre “O dedão do pé” foi originalmente produzido para a revista Documents, considerada por vezes a face pública do Collège de Sociologie [1937-39], e traduzido para o português em Inimigo Rumor 19 – revista de poesia.

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