arqui]vos de antropo[logia

[fr 47]

DOIS CASAIS são elementos, dois amigos, os líderes da comunidade.

A amizade pertence à ordem da solidão do destino. Na anarquia. – Só aí tem ela a sua essência segundo a posição dominante. Amizade e amor não diferem em si mesmos, apenas em sua posição para a comunidade. E, além disso, não há naturalmente nenhum sacramento transferido da amizade à ordem divina. Isto é o inaudito, o que torna a amizade perigosa: uma relação determinada livre de sacramento.

A sociedade moderna de modo algum conhece a amizade, ela é própria do helenismo, no qual o gênio alcançou a forma histórica mais pura. A amizade também desempenha um papel importante na mitologia do gênio. Ela desempenha um papel no judaísmo?

O que hoje é chamado amizade não merece este nome. Ela teria que sucumbir ao parâmetro pseudo-religioso atual (mas também ao religioso?).

Como amizade e amor se confrontam na ordem do gênio?

SOBRE O MATRIMÔNIO

Eros, o amor, possui a única direção para a morte comum dos amantes. Ele se desenrola como o fio num labirinto que tem seu centro na “câmara da morte”. Só aí sobrevém ao amor a realidade do gênero, onde a própria agonia se tornaria a luta do amor. Em contrapartida, o genérico em si mesmo escapa à morte própria e à vida própria, e chama às cegas a morte alheia e a vida alheia nesta evasão. Ele se dirige para o nada nessa desgraça, onde a vida é apenas uma não-morte e a morte é apenas uma não-vida. Assim deve o barco do amor passar entre a Cila da morte e a Caríbdis da desgraça, e isso nunca seria possível se Deus, nesse ponto de seu trajeto, não o torna-se indestrutível. Pois como a sexualidade do amor vindouro é completamente estranha, a do amor presente deve ser completamente singular. Ela jamais é a condição de seu ser e sempre a sua duração mundana. Mas Deus, no sacramento do matrimônio, torna o amor <imune> ao perigo da sexualidade e da morte. O perigo da sexualidade é que ela, nomeadamente, destaca o casal ou, mais precisamente, ela simplesmente o destaca para responsabilizá-lo, uma vez que a pessoa é incapaz de se responsabilizar por seus instintos e, além disso, jamais é responsável pelo que estes determinam. Mas somente o Deus da responsabilidade, no matrimônio, é a favor da sexualidade do casal, e assim o é por toda parte, exceto o próprio perigo desmedido da sexualidade, que faz parte da vida e que, por si só, conduz através da senda da ascese apenas os devotos.

(O que se diferencia nessa transformação misteriosa do amor através do sacramento é o feminino.)

nota do editor
A primeira – sem título – parte do apontamento deve provir da época da chegada de Scholem em Berna, em maio de 1918, como sugere a sequência de folhas no bloco e o estilo da escrita, bem como o conteúdo. De acordo com as informações de Scholem, a segunda parte é posterior, acrescentada em “aproximadamente 1920, na época do matrimônio de Benjamin”.

Fonte: Primeiro bloco de notas, Ms 689 – folha [15].
Período: Início do verão 1918 até aproximadamente 1920

VARIANTES […]

DOCUMENTOS […]

nota do tradutor
[DOIS CASAIS…] A expressão geniushafter Einsamkeit foi traduzida por ‘solidão do destino’. Sobre esta escolha, ver nota fr 44.
[SOBRE O MATRIMÔNIO] Vale notar o jogo estabelecido por Benjamin entre as palavras Tod [morte], Liebe [amor] e Kampf [luta] na composição dos substantivos Todeskampf [agonia] e Liebeskampfe [luta do amor]. Traduzido ao pé da letra Todes-kampf seria então ‘luta da morte’, que é de fato um dos sentidos em português para a palavra ‘agonia’, resultando em “[…] a própria luta da morte se tornaria a luta do amor”.
[SOBRE O MATRIMÔNIO] A palavra ‘sexualidade’ traduz aqui tanto Sexualität [ao longo de todo o apontamento e nos outros fragmentos aqui reunidos] quanto Geschlechtlichkeit [na expressão ‘perigo da sexualidade’, primeiro parágrafo, nono período do apontamento] criando assim uma indiferenciação entre coisas que talvez Benjamin tivesse a intenção de distinguir. Mais especificamente entre aquilo que, na sexualidade do casal, diz respeito ao sexo [Sex], isto é, o relacionamento determinado pelas diferenças sexuais entre dois organismos biologicamente distintos, e o que diz respeito ao gênero [Geschlecht], ou seja, o conjunto das relações determinadas – no caso deste fragmento, pelo casamento – a partir das diferenças sexuais percebidas entre homens e mulheres. Isto também é sugerido pela leitura dos frs 51, 52 e 56, onde se buscou preservar a mesma distinção.

3 comentários

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