arqui]vos de antropo[logia

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INÁCIO DE LOYOLA

A ascese jesuíta, a julgar pelos exercícios de Loyola, não parece ter sua peculiaridade nem na dor da carne nem na da consciência ético-moral, mas na da consciência do eu. De fato esta pode desenvolver um martírio singular como expiação, a partir de si mesma, e tão somente em substituição ao conflito, à ablução e ao esclarecimento morais. Assim procede na meditação e pensamento coercivos, na aritmomania do neurótico. E, tal como nestes, o martírio ascético dos exercícios se encontra não na seriedade ou em seu conteúdo ardente, que será refletido, mas se estende ao imensurável martírio superior da própria intentio. Esse martírio da consciência do eu intelectual, através da sua completa insubstancialidade, é predestinado para a regulamentação autoritária. Ele não tem mais nenhuma relação com a essência dos seres humanos e absolve, conforme se queira encarar, mística ou mecanicamente, como um sacramento. A tensão da expiação trasladada em cada zona puramente intencional deixa simultaneamente a vida moral num certo embotamento, no qual já não reage mais a seus próprios impulsos, mas ao estímulo cuidadoso e equilibrado da autoridade eclesiástica.

nota do editor
Segundo a declaração de Scholem, a frase Os Exercícios de Loyola são uma educação para a neurose obsessiva, que ouvira em 1919 de Benjamin, ficou clara na sua memória. Segundo a lista de leitura (v. vol. VII), que relaciona o livro sob o nº 700, ele deve tê-lo lido em 1920.

Fonte: Ms 766 – folha de cerca de 11 x 8 cm, [...]
Período: aproximadamente 1920

DOCUMENTO [...]

VARIANTES [...]

nota do tradutor
Benjamin distingue neste fragmento dois modos de consciência, Gewissen e Bewußtsein, traduzidas por ‘consciência ético-moral’ e ‘consciência do eu’, a partir de seus possíveis sinônimos em alemão, ethisches/sittliches Bewußtsein e Ichbewußtsein, respectivamente.

Interessante notar também a relação formal entre os substantivos Qual, ‘martírio’, e Bußqual, ‘expiação’, sendo Buße, ‘penitência’.

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