arqui]vos de antropo[logia

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APRENDIZAGEM E PRÁTICA

Essa questão, bem como algumas indicações valiosas para ela, eu agradeço ao senhor Dr. <Karl> Mannheim.

Aprendizagem é a forma da tradição, da vida espiritual da totalidade

Prática é a forma da experiência, da vida espiritual do individual

Aprendizagem possui continuidade (continuidade relativa do progresso)

Prática é inconstante (o progresso se realiza aos trancos, de súbito)

O exercício é encontrado em toda parte onde o indivíduo – mesmo como fundamento da instrução – procura a própria experiência: no erotismo religioso, na ascese mística (indiana-neoplatônica) Na prática, o indivíduo não afirma a sua responsabilidade, mas sim segundo suas próprias capacidades. Essa atitude, entretanto, é inadmissível na camada superior da existência na qual, segundo as suas capacidades, apenas o povo – o “escolhido” – deve se afirmar. Por isso a tendência ilimitada da ascese no supremo pagão. Vauvernagues diz com razão (nas máximas) “Les choses que l’on sait le mieux sont celles qu’on n’a pas apprises” – há todavia uma disponibilidade de conhecimentos que não pertencem mais às pessoas no tempo sobrenatural. O exercício – ou seu desenvolvimento extremo com as mais supremas finalidades, a ascese – não tem como meta, nomeadamente, o conhecimento, mas dispõe da capacidade para tal; ele não pode ser completamente sem conhecimento, mas não quer estar acima de seus bens, mas de seu entendimento. No entanto a pessoa, diante de Deus, deve compreender e nada mais, e se o conhecimento persiste diante disso, conta apenas como a incumbência da comunidade para com o indivíduo. O bem íntimo vem da aprendizagem; o extremo, da prática.

nota do editor
No final de 1922, Benjamin relatou sobre suas perspectivas de habilitação em Heidelberg, que  foram dificultadas pelo fato de que um judeu chamado [Karl] Mannheim esperava se habilitar aí com Alfred Weber. Um conhecido de Bloch e Lukács, um simpático rapaz, com quem tenho discordâncias (Briefe, 295). Scholem menciona “relações bastante amigáveis” que tinha feito (Scholem, Freundschaft, 142). Benjamin permaneceu em Heidelberg entre novembro de 1920 e final de fevereiro de 1922, e novamente em dezembro de 1922, o que sugere uma datação do apontamento por volta do final de 1921 / início de 1922 ou final de 1922.

Fonte: Primeiro bloco de notas, Ms 712 – folha [38]; tinta lilás.
Período: no final de 1921/1922 ou fim de 1922

DOCUMENTO: Vauvernagues [Marquis de Luc de Clapiers], Refléxions et maximes. Edition intégrale avec introduction, notes critiques et variantes par J.-Roger Charbonel, Paris 1934, 125 (maximes supprimées dans la seconde édition, 828)

nota do tradutor
A frase de Vauvernagues poderia ser traduzida por “As coisas que nós sabemos melhor são aquelas que não conhecemos”.

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